terça-feira, 31 de julho de 2007
Para aqueles que gostam de olhar o mundo de uma maneira diferente
OUTUBRO
RELEASE: O Cinema tem várias faces. As mais instigantes estão no Indie 2006
21/08/2006
Mostra Indie 2006
(Release enviado ao Cinema em Cena pela assessoria da Mostra Indie, em 18 de agosto de 2006.)
Produções de novos diretores, cinema nacional, retrospectivas e vários filmes inéditos são algumas atrações da sexta edição do festival.
Entre os dias 24 e 31 de agosto, a aposta do Indie de envolver o público em uma extensa programação de produções independentes realizadas ao redor do mundo aparece em 167 filmes, produzidos em 29 países, que serão exibidos em 281 sessões nas sete salas de cinema que recebem o festival. O Indie 2006 – Mostra de Cinema Mundial, pela sexta vez, vem provar que a produção cinematográfica corre por muitas e diversificadas vias. Com 14 programas, a mostra joga luz sobre obras que não costumam estar nos grandes cartazes. São novas gerações de diretores começando a chamar atenção pelo mundo, cerca de 40 filmes inéditos no Brasil, produções originais do cinema nacional, retrospectivas e boas idéias espalhadas em todo lugar.
Mais uma vez, os fãs do Indie vão encontrar uma seleção apurada de cinema independente, além de conhecer experiências audiovisuais autorais levadas a cabo no mundo todo. Realizado pela Zeta Filmes, o Indie vai movimentar a cidade em quatro pontos diferentes: Usina Unibanco de Cinema, Usiminas Belas Artes Cinema, Cineclube Unibanco Savassi e Cine Humberto Mauro. O Indie 2006, que tem todas as sessões gratuitas, espera este ano um público de 27 mil espectadores.
O Indie 2006 – Mostra de Cinema Mundial é apresentado pela Telemig Celular, tem patrocínio da Cemig, Usiminas e Newton Paiva e é realizado através dos benefícios da Lei Federal de Incentivo a Cultura (Ministério da Cultura), Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais e Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.
Com o catálogo em mãos, o grande desafio é escolher o que assistir. Só na Mostra Mundial são 35 filmes, de 18 países. Se o critério de escolha for o ineditismo, vale a pena prestar atenção nas obras que têm pouca chance de serem exibidas no Brasil. Alguns destaques da Mostra Mundial são o suíço “Após o Tremor”; o suspense nonsense russo “O Homem em Silêncio”, o australiano “Amor Moderno” e os documentários “O Livro de Recordes de Shutka” e “O Lugar da Felicidade”, além de “Uma Última Dança”, filme feito por um brasileiro em Cingapura.
No Indie Brasil, o mineiro Kiko Goifman, que já participou do festival em outras duas edições, mostra seu último documentário, “Atos dos Homens”. Já dois diretores que estiveram na primeira edição do Indie, em 2001, voltam para apresentar, desta vez, filmes documentais: Toni Venturi vem com “Dia de Festa” e Flávio Frederico exibe “Caparaó”. Completando o Indie Brasil, o programa Cinema de Garagem reúne 50 filmes e vídeos curtos, produzidos com baixo ou nenhum orçamento, por jovens e veteranos realizadores do audiovisual autoral brasileiro. Com curadoria de Dellani Lima, Cinema de Garagem é a mostra que faz os espectadores saírem da sala de cinema com vontade de colocar a mão na massa e produzir suas próprias imagens.
O que faz da mostra Japão Cult – Pink, Indie e Dark Filmes ser imperdível é a oportunidade de conhecer alguns dos diretores estreantes e veteranos que assinam o atual cinema japonês, quase nunca visto por aqui. São nove filmes inéditos que mostram como o Japão mistura nessa arte um pouco do pessimismo “dark”, uma remanescente influência do estilo pinku eiga (ou pink film) - espécie de pornô soft que surgiu nos anos 60 e que só existe como tal no Japão - e ainda, a liberdade de ser completamente indie.
As peculiaridades do cinema norueguês também estão em foco nesta edição do Indie. O Cine Noruega, que chega a Belo Horizonte com a colaboração do Instituto do Cinema Norueguês e da Embaixada Real da Noruega em Brasília, aponta como o cinema contribuiu de forma determinante para a criação da identidade do país. A mostra, que tem curadoria de Karl Erik Schollhammer, vai exibir seis títulos de longa-metragens inéditos no Brasil.
O programa Dark Matinée, que também tem um curador convidado, Bernardo Krivochein, traz, entre premières internacionais e pérolas redescobertas, 11 obras que configuram experiências cinematográficas únicas e causam reações díspares em cada espectador.
Os “indiemaníacos” vão assistir a oito documentários que passeiam por diferentes universos musicais na mostra Música do Underground. Alguns destaques: o documentário sobre a curta existência da banda americana The Minutemen, o hip hop feito em Cuba pelo La Fabri-k, e um filme que discute a possibilidade de trilhar um caminho independente no mercado da música. Tem também, “Brasilintime” que deixa ver o que acontece quando se une jazz, música brasileira, percussão e DJs.
O que o Indie tem feito nos últimos seis anos não é só deleitar seu público com imagens e idéias originais. Formar público sempre foi uma das principais intenções do festival, por isso as Retrospectivas são elementos-chave em todas as edições. Nessa perspectiva, entram em cartaz, no Indie 2006, seis longas e um documentário sobre a vida e a obra do polonês Janusz Morgenstern, cujos trabalhos são inéditos no Brasil.
Obras de Luchino Visconti, que completaria cem anos em novembro deste ano, também ganham atenção na retrospectiva. Um dos expoentes do movimento neo-realista, Visconti dirigiu grandes filmes como “Rocco e Seus Irmãos”, “Belíssima” e “O Inocente”, obras que serão exibidas na mostra. Além do documentarista francês Raymond Depardon, outro diretor que também tem sua obra revisitada é o cineasta japonês Shohei Imamura, duas vezes ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes, participa do programa com “A Balada de Narayama” (1983) e a “A Enguia” (1997).
Ainda na série de retrospectivas deste ano, Através do Irã faz um caminho pela cinematografia de linguagem universal do país exibindo 12 filmes. Já o programa Mondo Bizarro – Sexo, Perturbação e Estranhamento apresenta seis filmes e dois clássicos de diretores poloneses: um legítimo Roman Polanski dos anos 60, “Repulsa ao Sexo” e a perversão e o erotismo de “A Mulher e La Bête”, de Walerian Borowczyk.
Mais uma vez, as manhãs do Indie são reservadas para as crianças. Os seis filmes que integram o programa Kino para Crianças podem ser vistos por alunos da rede pública de ensino, com agendamento prévio. Cerca de 8 mil crianças e jovens da cidade vão assistir, de graça, a filmes com muita diversão e aventura.
INDIE 2006 – MOSTRA DE CINEMA MUNDIAL
QUANDO: 24 a 31 DE AGOSTO
ONDE:
USINA UNIBANCO DE CINEMA (R. AIMORÉS, 2.424 - SANTO AGOSTINHO)
USIMINAS BELAS ARTES CINEMA – Sala 3 (R. GONÇALVES DIAS, 1.581, LOURDES)
CINECLUBE UNIBANCO SAVASSI (R. LEVINDO LOPES, 358, SAVASSI)
CINE HUMBERTO MAURO (AV. AFONSO PENA, 1537, CENTRO)
INGRESSOS:
RETIRADA NA BILHETERIA DOS CINEMAS 30 MINUTOS ANTES DE CADA SESSÃO.
15% DOS INGRESSOS PARA AS SESSÕES DO USINA UNIBANCO DE CINEMA SERÃO DISTRIBUÍDOS ANTECIPADAMENTE, SOMENTE NOS DIAS 21 E 22 DE AGOSTO, NA LOJA TELEMIG CELULAR DO CENTRO (AV. AFONSO PENA, 785), DE 9H ÀS 20H
ENTRADA FRANCA
segunda-feira, 30 de julho de 2007
Jim Carrey
Danilo Gentili - Um ótimo humorista
http://www.danilogentili.com/
Uma curiosidade
Eles nunca chegaram a tocar juntos os tres, mas jimmy page tocava baixo enquanto beck tocava guitarra...ateh q o jeff foi fazer carreira solo, o page chamou um amigo chamado robert plant e eles montaram o New Yeardbirds, q depois mudou de nome para Led Zeppelin
sábado, 28 de julho de 2007
Army oh Two
-Humor
-Co-op
Lembrando que os gráficos estão porcos!
sexta-feira, 27 de julho de 2007
Asnos

Homem tenta fazer sexo com jumenta e morre com coice
O desempregado Cícero Balbino da Nóbrega, 20, conhecido como "Deca Batalhão", morreu na manhã desta segunda-feira ao receber o coice de uma jumenta com a qual tentava fazer sexo.
O coice do animal atingiu Cícero nos testículos e ele teve morte quase que imediata. Conforme a polícia local, o fato aconteceu atrás da Igreja Santo Expedito, em Patos (PB).
O corpo do desempregado foi encontrado por populares. Ele estava sem camisa e com as calças abaixadas até os joelhos, enquanto a jumenta estava amarrada ao seu lado. A polícia foi acionada e ouviu algumas testemunhas. Elas disseram que Cícero era acostumado a fazer sexo com o animal, cujo nome é "Mimosa".
***
Jumenta mata burro. Crime passional clássico.
quinta-feira, 26 de julho de 2007
quarta-feira, 25 de julho de 2007
Uma banda que realmente sabe fazer clipes
Mas preste atenção nos videos, são lindos, extremamente critícos e cheios de reflexão.
Por que você acha que apenas o último garoto não consegue pular?!
Quem não gostaria de ter uma velhice assim?!
Meu preferido
terça-feira, 24 de julho de 2007
Nascar 2008
Jason Aldean - Johnny Cash
Big & Rich - Loud
Big & Rich - Radio
Black Rebel Motorcycle Club - Need Some Air
Blackberry Smoke - Up in Smoke
Brooks & Dunn - Long Haul
Bucky Covington - Empty Handed
Crossin Dixon - Stomp
Halfway to Hazard - Country 'til the Day We Die
Palmerston - Addicted to This
Velvet Revolver - She Builds Quick Machines
segunda-feira, 23 de julho de 2007
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Existencialismo
A corrente existencialista assimilou ainda uma influência da fenomenologia cuja figura principal, Husserl, já citado, propõe a descrição dos fenômenos tais como eles parecem ser, sem nenhum pressuposto de como eles sejam na verdade. Para o existencialismo, a fenomenologia de Husserl significou um interesse novo no fenômeno da consciência.
Reunindo as sínteses do pensamento de cada um desses filósofos podemos listar os postulados principais dessa corrente filosófica que são:
1. A primeira é o ser humano enquanto indivíduo, e não com as teorias gerais sobre o homem. Há uma preocupação com o sentido ou o objetivo das vidas humanas, mais que com verdades científicas ou metafísicas sobre o universo. Assim, a experiência interior ou subjetiva - e aí está a influência da fenomenologia - é considerada mais importante do que a verdade "objetiva", um fundamento igual à da filosofia oriental.
2. O homem não foi planejado por alguém para uma finalidade, como os objetos que o próprio homem cria, mediante um projeto. O homem se faz em sua própria existência.
3. O mundo, como nós o conhecemos, é irracional e absurdo, ou pelo menos está além de nossa total compreensão; nenhuma explicação final pode ser dada para o fato de ele ser da maneira que é;
4. A falta de sentido, a liberdade conseqüente da indeterminação, a ameaça permanente de sofrimento, da origem à ansiedade, à descrença em si mesmo e ao desespero; há uma ênfase na liberdade dos indivíduos como a sua propriedade humana distintiva mais importante, da qual não pode fugir
Kierkegaard. O dinamarquês Soren Aabye Kierkegaard (1813-1855), encontra sua posição filosófica ao insurgir-se contra posições aristotélicas remanescentes na filosofia, o que faz opondo-se à filosofia de Hegel (1770 - 1831). Kierkegaard não só rejeitou o determinismo lógico de Hegel (tudo está logicamente predeterminado para acontecer) como sustentou a importância suprema do indivíduo e das suas escolhas lógicas ou ilógicas.
Kierkegaard contribuiu com a idéia original do existencialismo de que não existe qualquer predeterminação com respeito ao homem, e que esta indeterminação e liberdade levam o homem a uma permanente angústia.
Segundo Kierkegaard, o homem tem diante de si várias opções possíveis, é inteiramente livre, não se conforma a um predeterminismo lógico, ao qual, segundo Hegel, estão submetidos todos os fatos e também as ações humanas. A verdade não é encontrada através do raciocínio lógico, mas segundo a paixão que é colocada na afirmação e sustentação dos fatos: a verdade é subjetividade. A conseqüência de ser a verdade subjetiva é que a liberdade torna-se ilimitada. Consequentemente não se pode, também, fazer qualquer afirmativa sobre o homem. O pensamento fundamental de Kierkegaard, e que veio a se constituir em linha mestra do Existencialismo, é este: inexiste um projeto básico, para o homem verdadeiro, uma essência definidora do homem porque cada um se define a si mesmo e assim é uma verdade para si. Daí o moto conhecido que sintetiza o pensamento existencialista: "no homem, a existência precede a essência"
No caminho da vida há várias direções, vários tipos de vida a escolher, dentro de três escolhas fundamentais: o modo de vida estético, do indivíduo que não busca senão gozar a vida em cada momento; o modo ético, do indivíduo que é maquinalmente correto com a família e devotado ao trabalho, e o modo religioso dentro de uma consciência de fé.
A liberdade, segundo ele, gera no homem a angústia que pode levá-lo, de várias formas, ao desespero Então, cada decisão é um risco, o que deixa a pessoa mergulhada na incerteza, pressionada por uma decisão que se torna angustiante. Como no modo de vida estético, ele escolhe fugir dessa angústia e do desespero através do prazer e de buscar a inconsciência de quem ele é. Outra forma de fuga é ignorar o próprio eu, tornar-se um autômato, apegar-se a um papel, como no modo de vida ético.
Heidegger. O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) declarou-se um investigador da natureza do Ser. Heidegger contribuiu com seu pensamento sobre o ser e a existência, de onde o nome dado à corrente filosófica de "Existencialismo".
A angustia tem, no pensamento de Heidegger, origem diversa da liberdade. Para ele a angústia resulta da falta da precariedade da base da existência humana. A "existência" do homem é algo temporário, paira entre o seu nascimento e a morte que ele não pode evitar. Sua vida está entre o passado (em suas experiências) e o futuro, sobre o qual ele não tem controle, e onde seu projeto será sempre incompleto diante da morte inevitável.
Como uma filosofia do tempo, o existencialismo exorta o homem a existir inteiramente "aqui" e "agora", para aceitar sua intensa "realidade humana" do momento presente. O passado representa arquivos de experiências a serem usadas no serviço do presente, e o futuro não é outra coisa que visões e ilusões para dar ao nosso presente direção e propósito..
Portanto, no homem, o ser está relacionado ao tempo e está dado, - existe -, em três fenômenos, três "existenciais" que caracterizam como as coisas do passado, do presente e do futuro se manifestem para o homem e a unidade desses três fenômenos constitui a estrutura temporal que faz a existência inteligível, compreensível. São a afetividade, com que se liga ao passado pelo seu julgamento; a fala, com que se liga ao presente, e o entendimento, que é a inteligência com que lida com o seu futuro, com a angústia de sua predestinação à morte. Não podemos nos submeter a condicionamentos de nosso passado; não podemos permitir que sentimentos, memórias, ou hábitos se imponham sobre nosso presente e determinem seu conteúdo e qualidade. Nós também não podemos permitir que a ansiedade sobre os eventos futuros ocupem nosso presente, tirem sua espontaneidade e intensidade. Não podemos permitir que nosso "aqui e agora" seja liquidado
Na angústia, o homem experimenta a finitude da sua existência humana. Todas as coisas supérfluas em que estava mergulhado se afastam deixando-o a nú, como uma liberdade para encontrar-se com sua própria morte (das Freisein für den Tod), um "estar preparado para" e um contínuo "estar relacionado com" sua própria morte (Sein zum Tode). Essa visão existencial do homem, em que ele se conscientiza das estruturas existenciais a que está condicionado e que o tira da superficialidade em que desenvolve seus conflitos tornou-se sedutora para a psiquiatria.
A angústia funciona para revelar o ser autêntico, e a liberdade (Frei-sein) enseja o homem a escolher a si mesmo e governar a si mesmo.
Sartre. Heidegger e Sartre foram os dois mais importantes filósofos da corrente existencialista. Ambos foram profundamente influenciados pela filosofia de Edmund Husserl, a fenomenologia, e desenvolveram um método fenomenológico como base de suas respectivas posições filosóficas. Sartre contribuiu com mais pensamentos sobre a liberdade e chefiou dentro do movimento uma corrente ateísta.
Para Jean-Paul Sartre (1905-1980), a idéia central de todo pensamento existencialista é que a existência precede a essência. Não existe nenhum Deus que tenha planejado o homem e portanto não existe nenhuma natureza humana fixa a que o homem deva respeitar. O homem está totalmente livre é o único responsável pelo que faz de si mesmo. E são para ele, assim como havia colocado Kierkegaard, esta liberdade e responsabilidade é a fonte da angústia,
Sartre leva o indeterminismo às suas mais radicais conseqüências. Porque não há nenhum Deus e portanto nenhum plano divino que determina o que deve acontecer, não há nenhum determinismo. O homem é livre. Não pode desculpar sua ação dizendo que está forçado por circunstâncias ou movido pela paixão ou determinado de alguma maneira a fazer o que ele faz.
O pensamento de Sartre, contido em seus romances e peças de teatro e em escritos filosóficos influenciou fortemente os intelectuais franceses, entre eles Gabriel Marcel, que desenvolveu sua filosofia no âmbito do catolicismo romano, tornando-se um expoente do existencialismo cristão.
Gabriel Marcel. Apesar do precursor do existencialismo, Soren Kierkegaard, ser profundamente cristão, os principais filósofos que o desenvolveram e divulgaram, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre, eram ateus, com uma filosofia materialista, bastante pessimista e atéia. Surgiu porém uma corrente existencialista cristã, sendo o principal filósofo dessa corrente o filósofo Gabriel Marcel.
A psicanálise e a terapia existencial. Ao definir causas de estados mentais como a angústia e o desespero, Kierkegaard criou um elo com a psicologia Este elo prevaleceria e se fortificaria no futuro, com as posições de Sartre e sua crítica à psicanálise, com as posições de Gabriel Marcel e finalmente com a adesão a essas duas linhas, respectivamente, de psiquiatras ateus e psiquiatras cristãos. A partir das idéias filosóficas existenciais, psicoterapeutas como Ronald David Laing, na corrente materialista de Sartre, e Viktor Emil Frankl, na corrente religiosa de Gabriel Marcel, propuseram práticas psicoterápicas originais.
O inferno são os outros - Sartre
Vida. Jean-Paul Sartre, novelista francês, teatrólogo, e maior intelectual do Existencialismo, - filosofia que proclama a total liberdade do ser humano. Foi premiado com o Nobel de literatura de 1964, que desconsiderou.
Infância e juventude. Sartre nasceu em 21 de junho de 1905 e faleceu em 15 de abril de 1980, em Paris. Ficou órfão de pai muito cedo. O pai, oficial da marinha, faleceu ainda jovem, dois anos depois do nascimento do filho. Foi, com sua mãe, Anne-Marie Schweitzer, viver em casa de seu avô materno, Carl Schweitzer, de origem alsaciana e protestante, professor de Alemão na Sorbone, em um apartamento no sexto andar de um edifício em Meudon, nos arredores da capital, nas proximidades do Jardim de Luxemburgo. O célebre pastor Albert Schweitzer, prêmio Nobel da Paz de 1952, era sobrinho de seu avô, primo de sua mãe.
Sartre estudou primeiro no Liceu Henrique IV, em Paris. Mais tarde estudou no liceu em La Rochelle, localidade onde, tendo sua mãe se casado segunda vez, a pequena família passou a residir.
Após o liceu completou sua educação ingressando em 1924 na École Normale Supériure, onde se graduou em 1929. Ainda estudante passou a viver com Simone de Beauvoir (1908-1986) de quem nunca se separou. Na École Normale foi contemporâneo de escritores que viriam a ser intelectuais de renome, como Raymond Aron, Maurice Merleau-Ponty, Emmanuel Mounier, Jean Hippolyte, Claude Lévi-Strauss e a filósofa social esquerdista da escritora Simone Weil, (1909-1943) ativista na Resistência à invasão alemã e ao nazismo, cujas obras publicadas postumamente tiveram grande influência no pensamento social na França e na Inglaterra..
Terminado o curso de filosofia, fez serviço militar em Tours, como meteorologista.
Nos anos que precederam a grande guerra Sartre lecionou, entre 1931 e 1933, no Liceu do Havre; em 1933-34 esteve em Berlim, estudando fenomenologia. De 1934 a 1939 continuou no Havre passando depois para Neuilly-sur-Seine.
Na Alemanha Sartre iniciou a redação de "Melancolia", romance recusado pelos editores e mais tarde publicado com o título "A Náusea".
Influências. No período de um ano passado em Berlim, Sartre estudou a fenomenologia do filosofo alemão Edmund Husserl (1859-1938), as teorias do existencialismo de Heidegger e Karl Jasper (1883-1969) e a filosofia de Max Scheller (1874-1928). A partir desses autores, chegou a Soren Kierkegaard (1813-1855).
Durante os anos que lecionou no Havre, Sartre publicou suas primeiras obras, "A Imaginação" e "A Transcendência do Ego". Nelas, a começar por L'Imagination (1936 - "A Imaginação"), explora o método fenomenológico de Husserl, que propõe a descrição dos objetos como fenômenos mentais sem qualquer idéia preconcebida ou preconceituosa. Porém, foi a publicação do La Nausée (1938 - "A Náusea") que lhe trouxe fama. Esse romance, escrito em forma de um diário, revela os sentimentos de repugnância do personagem Roquentin, em relação ao mundo material inclusive pela consciência de seu próprio corpo. O romance contem em suas páginas grande parte das posições filosóficas que Sartre continuaria depois a desenvolver. Seu herói, Antoine Roquentin, desocupado, duvidoso de si mesmo, vive sozinho, sem amigos, sem amante, nada lhe importando, nem os outros homens, nem ele mesmo, descobre, na vida monótona de Bouville, o mistério metafísico do Ser: o mundo não tem nenhuma razão de existir e é absurdo que exista. "Tudo é gratuito, a jardim, esta cidade, e eu mesmo; quando acontece da gente se dar conta disso, isso atinge o cabeça e tudo começa a flutuar; eis a náusea". Em A 'Náusea, Sartre parece bastante próximo de Heidegger.
No ano seguinte, publicou "O Muro" (1939), uma coletânea de contos, e o ensaio Esquisse d'une théorie des émotions (1939 - "Esboço de uma teoria das Emoções"). O muro tem por personagem Pablo Ibietta, é uma denuncia do regime do ditador Franco, da Espanha, sob cujo poder o personagem Pablo Ibietta é preso e torturado. No ano seguinte publicou L'Imaginaire: Psychologie phénoménologique de l'imagination (1940 - "O Imaginário: Psicologia fenomenológica da Imaginação"), um ensaio.
Período da II Grande Guerra. Na primeira fase da guerra mundial Sartre serviu como meteorologista na Lorena, 1940. Caiu prisioneiro quando Hitler invadiu a França, e foi encerrado no campo de concentração de Trier (Treves), na Alemanha ocidental, cidade junto à fronteira com Luxemburgo que foi berço de Karl Marx. No período de sua prisão Sartre escreveu uma peça de teatro que depois não quis contar entre os títulos de suas obras, alegando que fora um trabalho dentro de um contexto particular, e que a havia escrito apenas para levantar o ânimo de seus companheiros de infortúnio. É uma peça natalina, representada pelos prisioneiros no Natal de 1940, e publicada 30 anos mais tarde com o título Bariona, ou Le fils du tonnerre ( "Bariona, ou O filho do trovão"). O drama, de inspiração religiosa, fala de Jesus e de Maria, Sua mãe, que "Trouxe-o no ventre durante nove meses, oferecer-Ihe-á o seio e o seu leite se tornará o sangue de Deus". Foi solto por razões médicas (por um alegado problema de visão) um ano mais tarde, na primavera de 1941. Em liberdade, voltou ao Liceu de Neuilly, passando depois a lecionar no Liceu Condorcet e no Liceu Pasteur, em Paris. Fundou então o grupo Socialismo e Liberdade a fim de atuar junto à Resistência. O grupo produziu panfletos clandestinos contra a ocupação alemã e contra os colaboracionistas franceses.
Em 1943, em plena fase da guerra, fez a primeira publicação de uma peça teatral, "As Moscas", que envolve veladamente o comando alemão e os colaboracionistas, e publicou também o famoso L'Être et le néant (1943 - "O Ser e o Nada"), obra fundamental da teoria existencialista. O "Ser e o Nada" subintitula-se "Ensaio de ontologia fenomenológica" e nele Sartre aprofunda seu pensamento com respeito à consciência humana, como "um nada" em oposição ao Ser. A consciência é "não-matéria", nada, e por isso mesmo escapa a qualquer determinismo. Sendo um "nada, ela "nadifica" seus objetos. A consciência é essencialmente negadora das coisas em-si mesmas, na medida em que se encontra revestida da característica ontológica de ser, ela própria, o seu próprio nada.
A teoria da negatividade da consciência não é senão uma das perspectivas do pensamento de Sartre. Outra é a de que o outro é o "mediador indispensável entre mim e mim mesmo"; precisamos de outrem para conhecer plenamente a nós mesmos. Mas a relação primordial com outrem é o conflito. Todo tipo de relação humana está condenado ao fracasso; através delas nunca atinjo o meu objetivo; a indiferença, o sadismo, o ódio, o masoquismo, o amor, a linguagem, são diversas manifestações da minha tentativa, sempre fracassada, de conviver com outrem. Essas obras e mais "Entre 4 paredes" (1944), rapidamente fizeram dele a mais célebre dos escritores franceses de seu tempo.
Segunda fase filosófica. Sartre lecionou até 1945. Nesse ano dissolveu o movimento Socialismo e Liberdade e fundou com Simone de Beauvoir, Merleau-Ponty (1908-1961), Raymnond Aron (1905-1983) e outros intelectuais, a revista de filosofia Les Temps Modernes ("Os Tempos Modernos"), deixando de lecionar para cuidar deste e de outros empreendimentos literários.
Tendo em uma primeira fase exaltado a liberdade, que em suas obras anteriores parecia ter valor por si mesma, agora, após as lições da guerra, Sartre voltou sua atenção para o conceito de responsabilidade social. Nesta nova abordagem da questão da liberdade ele planejou, em 1945, uma novela em quatro volumes sob o titulo Les Chemins de la liberté ("Os Caminhos da Liberdade") dos quais publicou três: L'Âge de raison (1945 - "Idade da razão"), Le Sursis (1945 - "Sursis"), e La Mort dans l'âme (1949 - "Com a Morte na Alma").
Em lugar do quarto volume de "Os Caminhos da Liberdade", Sartre decidiu que o romance poderia não ser o melhor veículo de suas mensagens e intensifica a produção de peças de teatro. Ele já havia produzido nessa área durante a guerra, e agora escreve vários: Les Mouches (1943), Huis-clos (1944), "Entre Quatro Paredes" (1945), "Mortos sem Sepultura" (1946) e "A Prostituta Respeitosa" (1946), Les Mains sales (1948 - "As mãos sujas"), e continua com Le Diable et le bon dieu (1951 - "O Diabo e o Bom Deus"), Nekrassov (1955), e Les Séquestrés d'Altona (1959 - Seqüestrados de Altona"), esta sobre o problema do colonialismo na Algéria Francesa. Todos essas peças fazem uma abordagem pessimista do relacionamento humano, enfatizando a hostilidade natural do homem para com seu semelhante, porém deixam antever uma possibilidade sempre presente de remissão e salvação.
De 1946 são os ensaios "O existencialismo é um Humanismo", escrito para esclarecer o significado ético do existencialismo, e "Reflexões sobre a Questão Judaica". Outras publicações da mesma época incluem um livro, Baudelaire (1947), um script para o cinema, "Os dadas estão lançados", na critica literária e psicológica "Baudelaire" e um estudo sobre o escritor e poeta francês Jean Genet, com o título Saint Genet, comédien et martyr (1952), "O Fantasma de Stalin (1956), e inúmeros artigos que foram publicados em seu jornal Les Temps Modernes. Porém em 1955 se desentende com Merleau-Ponty, com quem mantinha o jornal, por motivos políticos.
Atividades políticas. Após a II Guerra Mundial, Sartre havia continuado sua atividade política (nascida ao tempo da Resistência aos alemães) com inclinação manifestamente esquerdista, tornando-se um ativo admirador da União Soviética, apesar de nunca ter se filiado ao partido comunista. Em 1954 ele viajou pela Rússia, Escandinavia, África, Estados Unidos, e Cuba. Porém, a entrada de tanques soviéticos em Budapeste em 1956, deixaram Sartre desapontado com o comunismo. Ele escreveu no seu jornal Les Temps Modernes o artigo Le Fantôme de Staline, no qual condenava veementemente a intervenção soviética e a submissão do Partido Comunista Francês aos ditames de Moscou. Essa atitude crítica ensejou mais um livro, Critique de la raison dialectique (1960 - "Crítica da Razão Dialética") livro sobre afinidades do existencialismo com o marxismo. É também de 1960 o ensaio "Questão de Método", e de 1964 é Les Mots ("As Palavras"), uma análise psicológica e existencial de sua própria infância.
Sartre acusava o marxismo de se ter ossificado e que, em lugar de adaptar-se a situações particulares, compelindo cegamente o particular a enquadrar-se em um universal predeterminado. Quaisquer que fossem seus princípios gerais, o Marxismo precisava reconhecer circunstâncias existenciais concretas que diferem de uma comunidade para outra e respeitar a liberdade individual do homem. O projeto de um segundo volume do Critique foi, no entanto, temporariamente suspenso, e publicado em seu lugar o Les Mots, que mereceu o prêmio Nobel, que recusou.
Últimos anos. Muito se tem conjecturado sobre as verdadeiras razões de haver Sartre recusado o prêmio Nobel, as quais, aparentemente, não estariam tão claras para ele mesmo, que acreditava na transparência da consciência. Porém, seria no seu próprio subconsciente, que ele negava existir, que talvez estivesse a resposta. Foi uma criança super-estimulada a ser inteligente e vencedora, o que no íntimo ele talvez não acreditasse ser, sentindo-se um impostor comparado ao célebre pastor, primo de sua mãe, e ao seu próprio avô, figura solene, vastas barbas brancas, que "assemelhava-se a Deus Pai", figuras e exemplos em que pivotaram os estímulos de sua educação infantil. Comparado a esses que seriam para ele os verdadeiros merecedores do prêmio Nobel, - e um deles de fato recebeu o prêmio, - Sartre confessa um idealismo, não uma prática da generosidade, e um certo remorso por não ter sofrido, onde diz, em "As Palavras": "Meu idealismo épico compensará até a minha morte uma afronta que não sofri, uma vergonha que não padeci..."
De 1960 até 1971 a atenção de Sartre concentrou-se no preparo de um estudo em quatro volumes sobre o famoso escritor francês Gustave Flaubert. Dois volumes, com um total de 2.130 páginas apareceu no início de 1971, contendo minuciosas análises freudianas da infância e das relações familiares de Flaubert.
Atividades como conferencias e passeatas como meio de apressar a Revolução socialista passaram depois a ocupar boa parte do tempo de Sartre. Em 1961 viaja para Cuba e Brasil, e aqui foi festivamente recebido pelas esquerdas. Pouco escreveu em 1971. Apesar de tudo, em 1972 publicou o terceiro volume do trabalho sobre Flaubert, com o título L'Idiot de la famille ("O idiota da família"), igualmente denso e de leitura fastidiosa.
Em seus últimos anos Sartre ficou cego e sua saúde declinou até seu falecimento em Abril de 1980 devido a um tumor pulmonar. Teve um funeral impressionante pela massa popular que compareceu, estimada em 25.000 pessoas.
Sobre o aspecto meramente literário de sua obra, se diz que poderia ter colocado sua filosofia de uma forma mais clara e mais breve do que fez em "O Ser e o Nada".
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"O Ser e o Nada" tornou-se, como dito, a obra fundamental da teoria existencialista. Nele está contida praticamente toda a filosofia de Jean-Paul Sartre, cujos principais tópicos são comentados abaixo. Porém, Sartre apresentou o seu existencialismo de uma forma muito mais clara e breve em "O Existencialismo é um Humanismo", uma conferência dada em Paris em 1945. Seus seguidores, no entanto, alegam que, nesse ensaio, sua abordagem do assunto é popular e superficial, e não se pode confiar nela como uma exposição do seu pensamento. Mas é importante lembrar que Sartre não é o fundador do existencialismo. O pensador cristão dinamarquês Kierkegaard (1813-1855) é geralmente considerado como o primeiro existencialista moderno.
Existencialismo. Existir no sentido etimológico, é "sair de". "Por exemplo, - diz Sartre em "A Nausea" -, eu me sinto triste; mas tomar consciência de meu desgosto é colocá-lo como um objeto a distancia de mim. Pois o eu que diz 'estou triste' não é mais, de modo algum, o eu que está triste. Assim o homem está por sua consciência, sempre além de si mesmo. Eis o sentido do 'ex-istencialismo'."
As filosofias existencialistas aparecem sob diversas formas, sendo que a divisão mais radical é entre o ponto de vista religioso e o ateu. Sartre é o fundador e principal pensador dessa última corrente.
O nada. A influência do idealista G. W. F. Hegel em Sartre torna-se aparente quando o filósofo tenta interpretar tudo pelo método dialético, isto é, através de uma tensão de opostos. A dialética do "ser-um-com-o-outro" do homem é central: ver e ser visto corresponde a dominar e a ser dominado. Ser e não ser, como em "O Ser e o Nada" é outro exemplo dessa influência hegeliana, em que o confronto é entre a consciência e o seu objeto..
Como de resto todos os fenomenologistas, Sartre tem como ponto de partida o carater intencional da consciência. Todo modo de consciência representa algo, revela algo, apresenta algo, está voltado e direcionado para algo fora dela mesma, daí dizer-se que a consciência é intencional. Ela não existe sem estar voltada, sem estar representando, criando a presença de um objeto. Os objetos da consciência são reais, ainda que alguns sejam ideais, eles existem como fenômenos, - como imagens -, e porque existem Sarte os considera "seres em si", completos, acabados, de fato existentes.
Porém, há também um conhecimento ou consciência de que se é consciente, isto é, uma consciência da consciência. Então, diz Sartre, a consciência é um ser "para si".
Sem seu objeto, a consciência é um nada, um não-ser, pois que somente existe na relação de si mesma com o "ser em si". Ela procura o "ser em si" para fundar a si mesma, o que significa que ela destroi o "ser em si", transformando-o no seu próprio nada. "O ser e o nada", título de seu livro, refere-se a esses dois tipos de ser: o "ser em si" (fenômeno) e o "ser para si" (consciência).
Esta concepção do nada como algo que existe, que é a consciência, é importante para Sartre. É preciso notar aqui que é esta constante separação daquilo que somos, que Sartre chama o "nada", que obriga a realidade humana a se fazer ao invés de ser. A realidade humana é nada precisamente no que ela não é, mas está a se fazer incessantemente: O "nada", em Sartre, não é uma constatação niilista. E, em suma, a categoria do ideal, dos objetos ideais.. É importante encontrar um lugar para o "nada", poder dar existência ao "nada", a fim de fazer real a possibilidade da negativa. "A capacidade de conceber a negativa constitui a liberdade de imaginar outras possibilidades"... O poder de negar é a possibilidade de escolher, é o princípio da liberdade do pensamento (de imaginar possibilidades) e da liberdade de ação (o tentar realizá-las).
Pode-se, no entanto, criticar o postulado de Sartre de que a consciência pode fazer juízos negativos, como algo sem sentido. Os seus críticos apontam que um juízo negativo pode ser expresso em uma sentença negativa. "Pedro não está aqui" é tão verdade quanto "Pedro está fora daqui". O juízo é sempre afirmativo. Mas Sartre pretende "a existência objetiva de um não-ser", do "Nada".
É claro, porém, que a intencionalidade vem primeiro e, depois que se manifesta, alguma coisa foi escolhida, sem que nada seja previamente negado. É um paradoxo que a escolha dependa primeiro de negar determinadas possibilidades. Negar primeiro já é colocar a intencionalidade na negação.
O homem. Como seres conscientes estamos sempre querendo preencher o "nada" que é a essência do nosso ser consciente; queremos nos transformar em coisas em vez de permanecer perpetuamente num estado em que as possibilidades estão sempre irrealizadas.
É o principal postulado do existencialismo sartreano que não há afirmações gerais verdadeiras sobre o que os homens devem ser. Sartre leva esse indeterminismo às suas mais radicais conseqüências; nega que haja uma natureza humana: não há nenhuma coisa como uma natureza humana que seja comum a todos os seres humanos; nenhuma coisa como uma essência específica que defina o que seja ser humano existe!. Por exemplo, para Aristóteles, e os filósofos gregos, a essência de ser humano era ser racional. Mas para Sartre, a pessoa deve produzir sua própria essência, porque nenhum Deus criou seres humanos de acordo com um conceito, um projeto divino definido. - você é o que você faz de você mesmo.
Quando diz "a existência do homem precede sua essência", ou "no homem, a existência precede a essência", ele quer dizer que o homem se apresentou no mundo sem qualquer projeto concebido previamente por um Criador. Não havendo tal essência, todos são iguais e igualmente livres para se fazerem.
"Nojento", como salienta em "A Náusea" é exatamente aquele que esquece isso e se investe de certa "superioridade essencial". Mas não existe "ladrão ou marginal em essência", assim como não há "gente honesta em essência". Transformar o outro em coisa inferior, para se colocar numa essência superior, é negar simultaneamente a sua liberdade e a própria. Enquanto o olhar de alguém objetiva o outro em coisa essencialmente inferior, o outro, por sua vez, olha e constitui esse alguém num carrasco e ele terá vergonha desse seu olhar.
É no universo dos nojentos e dos covardes que vale a dolorosa constatação de "Entre quatro paredes": "o inferno são os outros". Assim, não há uma natureza humana, visto que não há Deus para a conceber: o homem não é mais do que aquilo que ele faz de si mesmo. Tal é o primeiro principio do existencialismo ateu. Mas Sartre salienta que aquilo que vulgarmente entendemos por querer, é uma decisão consciente que, para a maior parte de nós, é posterior ao que alguém já fez de si mesmo.
Liberdade. No entender de Sartre, estamos "condenados à liberdade"; não há limite para nossa liberdade, exceto o de que "não somos livres para deixarmos de sermos livres." Porque não há nenhum Deus e portanto não há qualquer plano divino que determine o que deve acontecer, não há nenhum determinismo. O homem é livre. Nada o força a fazer o que faz. "Nós estamos sozinhos, sem desculpas." O homem não pode desculpar sua ação dizendo que está forçado por circunstâncias ou movido pela paixão ou determinado de alguma maneira a fazer o que faz.
A angústia. Seguindo a Kierkegaard, Sartre usa o termo "angústia" para descrever essa consciência da própria liberdade. Nós estamos livres porque nós não podemos confiar em um Deus ou na sociedade para justificar nossa ação ou para nos dizer o que e quem nós somos. Nós estamos condenados porque sem diretrizes absolutas, nós devemos sofrer a agonia de nossa tomada de decisão e a angustia de suas conseqüências. A angustia é, então, a consciência da própria liberdade... A angústia é a consciência dessa liberdade de escolha, a consciência da imprevisibilidade última do próprio comportamento... Uma pessoa à beira de um penhasco perigoso tem medo de cair, e sente angustia ao pensar que nada o impede de se jogar lá embaixo, de se lançar no abismo.. O pensamento mais angustioso de todos é quando, num dado momento, nós não sabemos como nós iremos nos comportar no momento seguinte.
Sartre descreve a vida humana como "uma consciência infeliz". O homem está sempre tentando alcançar um estado em que não restariam possibilidades irrealizadas, no qual diria: "eu não tinha outra escolha, situação em que seria um objeto em vez de um ser consciente, com opções e liberdade. Mas, argumenta, "Não podemos chegar a um estado em que não restem possibilidades irrealizadas", ou aí estaríamos determinados, sem escolha possível e portanto sem liberdade. Não há fuga possível da angústia da liberdade; fugir à responsabilidade é em si mesmo uma escolha.
A "má fé". Às vezes nós escapamos da ansiedade fingindo que nós não estamos livres, como quando nós fingimos que nossos genes ou nosso ambiente são a causa de como nós agimos. Nós nos permitimos ser auto-enganados ou mentir para nós mesmos, especialmente quando isto toma a forma de responsabilizar as circunstâncias por nosso fado e de não lançar mão da liberdade para realizar a nós mesmos na ação. Quando nós fingimos, nós agimos de má fé.
A má fé é a tentativa de fugir da angústia fingindo que não somos livres. Tentamos nos convencer que as nossas atitudes e ações são determinadas pela nossa personalidade, por nossa situação, ou por qualquer outra coisa fora de nós mesmos". Porém, diz Sartre, o que é aprendido, ou os propósitos, as experiências passadas, não determinam o comportamento atual.. Segundo ele, "nenhum motivo ou resolução passada determina o que fazemos agora". "Cada momento requer uma escolha nova ou renovada".
Negar a liberdade é, a seus olhos, uma tomada de posição covarde, a fim de fugir da angústia da escolha, e achar o repouso e a segurança na confortável ilusão de ser uma essência acabada.
Sartre diz que, porque não existe Deus, o homem não foi criado para nenhum propósito particular, essência alguma. Dizer que estamos obrigados por nossa natureza, nosso papel na vida, a agir de certo modo constitui "má fé".
A Psicanálise Existencial. Sartre rejeita enfaticamente a idéia de causas inconscientes dos fatos psíquicos; para ele tudo que está na mente é consciente. Rompeu com a psicanálise por esta retirar a responsabilidade do indivíduo ao invocar a ação de uma força subconsciente e estados mentais inconscientes, que, para Sartre, não existem. Sustenta que a consciência é necessariamente transparente para si mesma. Todos os aspectos de nossas vidas mentais são intencionais, escolhidos, e de nossa responsabilidade, o que é incompatível com o total determinismo psíquico postulado por Freud.
Teríamos de atribuir a repressão inconsciente a alguma instância dentro da mente (a "censura") que distingue entre o que será reprimido e o que pode ficar consciente, de forma que essa censura tem de estar a par da idéia reprimida a fim de não estar a par dela. Portanto, o inconsciente não é verdadeiramente inconsciente. Em algum nível eu estou consciente, e escolho, o que vou e o que não vou permitir vir claramente à minha consciência. Por isso não posso usar "o inconsciente" como uma desculpa para meu comportamento. Mesmo que eu não possa admitir para mim mesmo, eu estou consciente e escolhendo. Mesmo na decepção que sofro, eu sei que sou eu aquele que me decepciona, e o assim chamado "Censor" de Freud deve estar consciente para saber o que reprimir. Aqueles que usam o inconsciente como desculpa do comportamento acreditam que nossos instintos, nossas inclinações e nossos complexos constituem uma realidade que simplesmente é; que não é verdadeira nem falsa em si mesma mas simplesmente real.
Somos responsáveis por nossas emoções, visto que há maneiras que escolhemos para reagir frente ao mundo. Somos também responsáveis pelos traços duradouros da nossa própria personalidade. Não podemos dizer "sou tímido", como se isto fosse um fato imutável, uma vez que nossa timidez representa a forma como agimos, e que podemos escolher agir diferentemente.
Nossos atos nos definem. Na vida, o homem se compromete, desenha seu próprio retrato e não há mais nada senão esse retrato. Nossas ilusões e imaginação a nosso respeito, sobre o que poderíamos ter sido, são decepções auto-infligidas. Permanentemente estamos a nos fazer do modo que somos. Uma pessoa "corajosa" é simplesmente alguém que geralmente age com bravura. Cada ato contribui para nos definir como somos, e em qualquer momento podemos começar a agir de modo diferente e desenhar um retrato diferente de nós mesmos. Há sempre uma possibilidade de mundaça, de começar a fazer um tipo diferente de escolha. Temos o poder de nos transformar indefinidamente..
O instrumento proposto por Sartre para que possamos conseguir um auto-conhecimento genuíno é a Análise Existencial. Ele chama "Psicanálise Existencial" a "Uma psicanálise que busca não as causas do comportamento de uma pessoa, mas o seu sentido" (O que o comportamento exprime como escolha). A função desta psicanálise não é procurar as causas inconscientes do comportamento de uma pessoa, mas o significado desse comportamento. A realidade humana identifica-se e se define pelos fins que busca e não por pretensas "causas" no passado.
Nenhuma "essência" determinada de mim mesmo orienta a priori meu comportamento. Porém, há o que Sartre chama "Projeto Original". Como uma pessoa é essencialmente uma unidade, e não apenas um amontoado de desejos ou hábitos sem relação, deve haver para cada uma delas uma escolha fundamental por um papel ou script de vida, o "projeto original", o qual dá o significado de qualquer aspecto específico de seu comportamento.
A radical oposição de Sartre à psicanálise influiu grandemente na psiquiatria de seu tempo. Ronald David Laing (1927-1989), um conhecido psiquiatra inglês de origem escocesa, buscou um novo método de tratamento da loucura seguindo a filosofia existencialista. Entre suas principais obras está Reason & Violence: A Decade of Sartre's Philosophy ("Razão e violência: uma década da filosofia de Sartre"), em co-autoria com D.G. Cooper, de 1971.
Socialismo. Sartre rompeu com o socialismo e a psicanálise considerando o quanto o Existencialismo se opõe à teoria psicanalítica. A submissão ao inconsciente significaria cerceamento da liberdade. O mesmo diz do socialismo. Depois de renunciar ele mesmo ao comunismo, denunciou que o planejamento social implica restrição ou perda total da liberdade. Os existencialistas acreditam na capacidade de todo indivíduo de escolher as suas atitudes, objetivos, valores e formas de vida e seu postulado de liberdade representa obstáculo intransponível ao conformismo requerido pelo planejamento socialista e sua negação da individualidade em favor do social e coletivo.
Posteriormente Sartre adotou uma forma de marxismo que ele considerava como a "filosofia inescapável do nosso tempo", que só precisava ser refertilizada pelo existencialismo. Esta mudança de ponto de vista encontra-se na sua "Crítica da Razão Dialética", volume I, de 1960.
Deus. Sartre é um existencialista ateu. Segundo Sartre, o homem está abandonado; Deus não existe e, para Sartre, a não-existência de Deus tem implicações extremadas. Aliás, alguns dos problemas principais que se levantam do abandono parecem também levantar-se meramente do fato de nós não podermos saber se Deus existe. Se Deus realmente existe, nós "não estamos abandonados". O problema do abandono levanta-se meramente do fato de nós não podermos saber se Deus existe. Sua existência em tais condições equivale, para Sartre, em uma não-existência efetiva, que tem implicações drásticas. Primeiro, porque não há Deus, não há nenhum criador do homem e nem tal coisa como um concepção divina do homem de acordo com a qual o homem foi criado. Segundo, diz ele, louvando-se em Dostoiévski (na fala de Ivan Karamazov, na famosa novela daquele escritor russo): Se Deus não existe, então tudo é permitido. Terceiro, "Não há um sentido ou propósito último inerente à vida humana; a vida é absurda".
Isto significa que o indivíduo, foi jogado de fato na existência sem nenhuma razão real para ser. "Simplesmente descobrimos que existimos e temos então de decidir o que fazer de nós mesmos.".
Resta como o único valor para o existencialismo ateu a liberdade. Afirma que não pode haver uma justificativa objetiva para qualquer outro valor.
Porque não há nenhum Deus, não há nenhum padrão objetivo dos valores. Com o desaparecimento dele desaparece também toda possibilidade de encontrar valores. Não pode então haver qualquer bem a priori porque se nós não sabemos se Deus existe, então nós não sabemos se há alguma razão final porque as coisas acontecem da maneira que acontecem; não há nenhuma razão final porque qualquer coisa tenha acontecido ou porque as coisas são da maneira que elas são e não de alguma outra maneira e nós não sabemos se aqueles valores que acreditamos que estão baseados em Deus têm realmente validade objetiva. Consequentemente, porque um mundo sem Deus não tem valores objetivos, nós devemos estabelecer ou inventar, a partir da liberdade, nossos próprios valores particulares. Na verdade, mesmo se nós soubéssemos que Deus existe e aceitássemos que os valores devessem basear-se em Deus, nós ainda poderíamos não saber que valores estariam baseados em Deus, nós poderíamos ainda assim não saber quais seriam os critérios e os padrões absolutos do certo e do errado. E mesmo se nós sabemos quais são os padrões do certo e do errado (critérios), exatamente o que significam ainda seria matéria da interpretação subjetiva. E assim o dilema humano que resultaria poderia ser muitíssimo o mesmo como se não houvesse Deus.
Ética. Sartre acredita na capacidade de todo indivíduo de escolher as suas atitudes, objetivos, valores e formas de vida. É uma ilusão a crença de que os valores existem objetivamente no mundo, em vez de serem criados apenas pela escolha humana. Recomenda honestidade, ou seja, que façamos nossas escolhas individuais com plena consciência de que são autenticamente nossas e nada as determina por nós. Parece assim que Sartre, a partir das próprias premissas, teria que elogiar o homem que escolhe devotar a vida à exterminação dos judeus, contanto que ele escolha isso com plena consciência do que está fazendo. Porém, paradoxalmente, a "sinceridade" que iria contrapor-se à má fé, não é inteiramente possível. O ideal de sinceridade completa parece condenado ao fracasso por dois motivos. Primeiro, uma vez que não podemos ser simplesmente objetos observados e corretamente descritos, não podemos ser considerados, nem por nós mesmos, como honestos. Segundo, por que se é sincero no mal. Assim sendo, o único valor fundamental e universal para o existencialismo é a liberdade. Diz Sartre "Não pode haver uma justificativa objetiva para qualquer outro valor". A única recomendação positiva que Sartre pode fazer é que deveríamos evitar a má fé e procurar fazer escolhas autênticas.
Crítica. Sartre foi, sem dúvida, essencialmente um filósofo moralista e um psicólogo arguto, e contou com a simpatia de uma vasta imprensa esquerdista em todo o mundo. Porém, pouco do que disse foi concepção original sua. Ele tomou seu ponto de partida das filosofias de Husserl e Heidegger. Seu primeiro trabalho, L'Imagination (1936) e L'Imaginaire: Psychologie phénoménologique de l'imagination (1940), ficam completamente no contexto da análise da consciência que fez Husserl. O pensamento de Heidegger aparece com clareza em "A Náusea". A definição do homem como um ser de possibilidades que encontra ou perde a si mesmo nas escolhas que faz com respeito a si mesmo corresponde à definição de Heidegger do que chamou Dasein como o ser que tem que se fazer, se materializar. Segundo seus críticos, no L'Être et le néant (1943), um ensaio de ontologia fenomenológica, está óbvio que Sartre copiou de Heidegger. Algumas passagens da obra de Heidegger Was ist Metaphysik? (1929- "Que é a Metafísica?"), na verdade foram literalmente copiadas. O significado do "Nada", objeto da investigação de Heidegger em suas aulas, foi a questão que guiou o pensamento de Sartre.
SCHOPENHAUER
Formação. Arthur Schopenhauer nasceu a 22 de fevereiro de 1788 em Gdansk, na Polônia, cidade que depois passaria à Prússia como Danzig, e voltaria a ser Gdansk após a Segunda Guerra Mundial. Sua mãe, Johanna, foi escritora, e seu pai Heinrich Floris Schopenhauer, foi negociante e era um homem irascível e dominador. Quando em 1793 Gdansk passou à Prússia, a família mudou-se para Hamburgo.
Ao final de sua infância Schopenhauer viveu por perto de dois anos (1798/1800) no Havre de Grâce, França, em casa de um comerciante amigo de seu pai. No retorno a Hamburgo estudou em uma escola particular de comércio as doutrinas econômicas dos iluministas. A idéia era que ele continuasse as especulações financeiras do pai.
Com 15 anos acompanhou os pais em viagem pela Europa, em um giro contrário aos ponteiros do relógio: Bélgica, França, Suíça e Áustria. Seus biógrafos salientam que ficou impressionado com a prisão de Bagno, em Toulon, na França, que reunia seis mil galés, um quadro de miséria humana que pode ter contribuído muito para o seu extremo pessimismo.
Passou à prática comercial, ao falecer seu pai em 1805. Este suicidou aos 58 anos, aparentemente por problemas mentais de fundo genético (sua progenitora havia morrido louca) e prejuízos financeiros. A mãe, viúva aos 38 anos, e a irmã do filósofo foram para Weimar. Ele permaneceu em Hamburgo para cuidar de negócios e somente em maio de 1807 foi juntar-se à família em Weimar.
Em 1809 Matriculou-se na escola de Medicina da Universidade de Göttingen. Porém desistiu da medicina e passou à filosofia e Letras (humanidades) no 2o semestre. Trocou Göttingen por Berlim no outono de 1811, e lá foi aluno de Fichte e de Friedrich Schleiermacher um dos pais da moderna teologia. Agradaram-lhe mais as aulas de Friedrich August Wolf. Estudou Platão e Kant e teve a influência de Gottlob Ernst Schultze, autor de Aenesidemus, crítico do kantismo.
Devido à guerra, deixa Berlim para viver em uma hospedaria em Rodolstadt. Termina sua tese "Vierfach Wutzel der Zats uber zurechern Grund ( "Sobre a quadrupla raíz do princípio da razão suficiente) que apresenta na Universidade de Jena em 1813
Período em Weimar. Schopenhauer não aprovava a conduta da mãe e as relações entre os dois ficaram difíceis, quando ele se juntou à família em Weimar. Ele não quis morar sob o mesmo teto que ela e ia à sua casa apenas quando ela dava recepções. Ainda assim, as censuras e as acusações mútuas, ela de que ele era arrogante e presumido, ele reprovando seu comportamento livre, acabaram por levar a uma rutura definitiva entre mãe e filho. Uma pequena mostra dessa arrogância é muito citada: Schopenhauer teria dito que ela seria conhecida no futuro não pelo que ela escreveu, mas pelo fato de ter sido a mãe dele. Em uma de suas discussões a mãe o empurrou escada abaixo. No entanto, foi nas reuniões de que participou em casa de sua mãe que Schopenhauer conheceu as figuras mais importantes da cidade, inclusive Goethe, que podia levar consigo a amante Christiane, recusada em casa de seus outros amigos.
No inverno de 1813-1814 trabalhou com Goethe em um artigo sobre as cores, Über des Sehen und die vorstellung ("Sobre a visão e as cores") apoiando as idéias de Goethe contra Newton, que seria publicado em 1816..
Além de Goethe, Schopenhauer conheceu em Weimar a Johan Gottfried Herder, o clérigo então célebre por haver liderado o movimento Sturm und Drang; o discípulo de Herder, Friedrich Maier, que o introduziu na filosofia hindu, e ao poeta Christoph Martin Wieland, que publicava a prestigiosa revista literária "Mercúrio alemão". Goethe reconhecia seu talento para a investigação filosófica. Também conheceu - e apaixonou-se por ela -, a cantora Karolina Jagemnn, amante do Duque Carlos Augusto, e inimiga de Goethe.
Em maio de 1814 rompeu definitivamente com sua mãe e foi viver em Dresden. Depois que deixou Weimar, nunca mais procurou por ela nos 24 anos que ela ainda viveu.
Período em Dresden. Schopenhauer haveria de passar alguns anos em Dresden. Lá colaborou ocasionalmente no periódico Dresdener Abendzeitung ("Jornal vespertino de Dresden") e se tornou amigo do filosofo panteísta K G F Krause com o qual podia discutir filosofia oriental; terminou seu artigo sobre as cores, iniciado com Goethe, e publicado em 1816, e esteve ligado a uma mulher.
Nos três anos seguintes escreveu sua obra principal Die Welt als Wille and Vorstellung ("O Mundo como vontade e representação") que seria publicado em 1819.
A obra está dividida em quatro livros. O primeiro trata da teoria do conhecimento, iniciando-se por Kant, para quem o mundo só é conhecido em sua aparência, e pelos fenômenos que relacionam as coisas entre si.
No livro II, trata do homem, do sujeito que conhece os fenômenos, conhece a si mesmo externamente, mas não pode conhecer sua própria essência. No entanto o homem pode conhecer a Vontade, que é algo em si mesma, independente de aparências. E conclui que essa "coisa em si" é a essência e a força não apenas do homem mas de todo o universo, e sua permanente insatisfação é a causa de todos os males.
Nos livros III e IV Schopenhauer desenvolve suas idéias sobre Ética e Estética. As artes permitem ao homem viver momentos em que está livre da Vontade. Classifica as artes segundo esse poder: Arquitetura é a menos capaz de dar essa liberdade, e a música é a mais libertadora de todas, ultrapassando a poesia. A superação definitiva da vontade, no entanto, tem por único caminho renunciar ao individualismo, compadecer-se do sofrimento alheio e viver como os gênios e os santos, uma vida de ascetismo e desprendimento.
Maturidade. Em 1819 Schopenhauer fez uma viagem a Itália. Em Veneza teve uma amante, chamada Teresa. Desta viagem ficou registrado um incidente: passeando com a amante, esta mostrou incontida admiração pela figura do poeta inglês Byron, que estava na cidade e passou pelo casal no cavalo a galope. Por ciúme Schopenhauer não procurou pelo poeta, para o qual tinha uma carta de apresentação de Goethe.
Após sua viagem à Itália, em 1820, Schopenhauer fez concurso para professor da Universidade de Berlim. Hegel fez parte da banca examinadora. Obteve o lugar na Universidade e começou uma competição com Hegel pelos alunos que pagariam seu salário. Conseguiu apenas nove estudantes. Ficou dois anos ligado à Universidade mas somente lecionou no 1 semestre do primeiro ano. Os estudantes preferiam as aulas de Hegel.
De índole beligerante e cheio de ressentimentos, a partir de então Schopenhauer combateu implacavelmente Hegel e seus colegas amigos daquele filósofo, inclusive Schelling e Fichte, chamando-os fanfarrões e charlatães, e atacou os professores de filosofia em geral no seu ensaio "Sobre a filosofia na universidade". Depois de uma segunda viagem à Itália (1823 e 1824), foi por um ano professor em Munique. Traduziu então "O oráculo manual", do jesuíta espanhol Baltazar Gracián, cujo estilo autoritário e abundante em máximas morais ele admirava.
A partir de 1831 passou a residir em Frankfurt on Main.
Um seu biógrafo conta que Schopenhauer havia herdado uma participação na firma do pai e a renda que isso lhe proporcionava permitiu-lhe viver com relativo conforto. Comenta que ele investiu seu dinheiro com uma sabedoria que não condiz com um filosofo. Quando uma empresa da qual ele havia adquirido ações faliu, e os outros credores concordaram com um acerto na base de 70%, Schopenhauer lutou pelo pagamento integral, e ganhou. Ficou com o suficiente para alugar dois quartos numa pensao; ali viveu os últimos trinta anos de sua vida
Últimos anos. Sempre sustentado por rendas com origem na herança recebida do pai, quando não estava escrevendo despendia o tempo em observações no Museu de Ciências Naturais, freqüentava teatros e concertos, ocupava-se da leitura dos clássicos, de mestres espanhóis e literatos franceses, e mantinha pouco contacto social. Sem nenhum amigo, tinha por companheiro um cachorro, um pequeno poodle ao qual deu o nome de Atma (o termo brâmane para indicar a Alma do Mundo), mas os galhofeiros da cidade o chamavam de "Schopenhauer Júnior". Caminhava solitário com seu cachorro e falava sozinho na rua, em seus passeios ao fim da tarde.
Jantava, em geral, no Englischer Hof. No inicio de cada refeição, colocava uma moeda de ouro sobre a mesa, à sua frente; e ao final tornava a colocar a moeda no bolso. Foi, sem dúvida, um garçom intrigado com esse gesto que lhe perguntou o significado daquela invariável cerimônia. Schopenhauer respondeu que era sua aposta silenciosa, com a promessa de depositar a moeda na caixa de coleta de esmolas no primeiro dia em que os oficiais ingleses que jantavam lá falassem sobre outra coisa qualquer que não fosse cavalos, mulheres ou cachorros.
Em 1836 publicou Über der willen in der Natur ("Sobre a vontade na natureza"), um complemento ao 2o. livro do Die Welt buscando demonstrar que as descobertas das ciências naturais corroboravam sua teoria da vontade. No prefácio ataca Hegel e seus adeptos. No ano seguinte recebeu um prêmio da Sociedade de Ciências da Noruega pelo Über die Freiheit des Menchlichen willens ("Sobre a liberdade da vontade dos homens"), que depois foi publicado em 1839. Concorreu, mas perdeu, ao prêmio da sociedade de Ciências da Dinamarca com Über des fundament der Moral" ("Sobre os fundamentos da Moral") publicado em 1840, complemento ao 4o. livro do Die Welt. Finalmente reuniu o 4o livro do Die Welt com o Uber des fundament em um único Die beiden grandproblem der Ethik ("Os dois problemas fundamentais da Ética") publicado em 1841.
Em 1848 condenou a revolução como uma erupção da natureza primitiva do homem.
Teve alguns discípulos. Um deles, Julius Francenstadt, conseguiu que um editor de Berlim publicasse seu último livro, o qual fora rejeitado por 3 outros editores, o Parerga und Paralipomena ( significa "Acessórios ou trabalhos menores" e "Remanescentes"), de 1851. O livro teve um inesperado sucesso e contribuiu para tornar o filósofo conhecido. Em 1853 John Oxenford, um crítico inglês, escreveu um artigo no Westminster Review contra Hegel usando elementos da filosofia de Schopenhauer o que contribuiu para sua fama.
Wagner lhe enviou "O Anel de Nibelung em 1854, com a dedicatória "com veneração e gratidão". Nesta obra, uma tetralogia, o compositor alemão expressa seus fortes sentimentos pelo nacionalismo alemão, o socialismo internacional, a filosofia de Schopenhauer, o budismo e o cristianismo. Em Bhon e Breslau eram dadas aulas de sua filosofia. Foi comparado ao poeta pessimista italiano Conde Giacomo Leopardi, e recebeu a visita do dramaturgo Friendrich Hebbel e do estadista francês Foucher de Careil. Em 1858 a Academia Real de Ciências de Berlim ofereceu-lhe o título de membro, que ele recusou.
Em 1859 saiu a 3a. edição do Die Welt, em 1860 a segunda edição do Ethika. Faleceu em 21 de setembro de 1860 de mal subto.
Platão e Kant. Schopenhauer assume a doutrina de Platão de que os objetos do mundo não eram mais que aparências, meras sombras das coisas verdadeiras, as quais o homem não podia conhecer neste mundo, feito todo ele de representações imperfeitas. Para Platão as coisas perfeitas e absolutas existiam no mundo das idéias, onde as almas, antes de se encarnarem nos corpos, puderam vislumbrá-las. No mundo das idéias existe a beleza total e completa, mas coisas belas do mundo eram belezas incompletas, eram apenas representações imperfeitas da verdadeira beleza, que estava fora do alcance e da compreensão do homem. No entanto Schopenhauer pondera que existe uma coisa absoluta que o homem conhece totalmente: a vontade.
Analisando minuciosamente também a Kant, Schopenhauer objeta que a Vontade também escapa à sua doutrina. Também Kant havia dito que conhecemos os fenômenos que nos revelam as coisas mas não as conhecemos em si mesmas, totalmente. Disse que nosso conhecimento está preso a certas fórmulas de apreensão da realidade e que só podemos elaborar o conhecimento de modo limitado segundo quatro grupos de formas ou de categorias de intuição: o de quantidade, o de qualidade, o de relação e o de modalidade. Esses grupos de categorias totalizam doze categorias, entre elas, por exemplo, a de pluralidade, ou seja, a percepção de que uma coisa é única ou múltipla, dentro do grupo das categorias de quantidade. Assim também se dá com a categoria de causalidade, uma forma de relação, segundo a qual nós podemos dizer que uma coisa é a causa de uma outra, não apenas porque vemos uma sucessão de eventos, mas porque também somos capazes de conceber uma vinculação de causa e efeito.
Kant disse mais que, primeiramente, tudo que sabemos são coisas que se sucedem no tempo e se distribuem no espaço. Espaço e tempo precede, portanto, as 12 categorias, uma vez que não sabemos de nada que não esteja no espaço, real ou imaginário, ou que não esteja no tempo. A aquilo que podemos conhecer Kant deu o nome de fenômenos, e para o que existe sem que possamos conhecer, deu o nome de nôumeno que significa, a coisa não aparente, incognoscível, que se costuma dizer também que é "a coisa em si".
Em sua crítica a Kant Schopenhauer diz que existem coisas que conhecemos sem nos valermos de qualquer das 12 categorias, e que também não dependem do tempo e do espaço: a consciência e a vontade.
A Vontade. Para descobrir a "coisa em si", Schopenhauer voltou sua atenção para o próprio homem, que também é uma coisa no universo. É verdade que o homem somente pode conhecer seu corpo como fenômeno, como aparência, segundo o tempo e o espaço e as categorias. Porém, voltando-se para o seu interior, já não precisa de tempo nem de espaço para sua consciência. Esta é atemporal e pontual. A vontade, por sua vez, representa o querer viver, é o querer realizar-se. A vontade é uma coisa em si mesma, irredutível a qualquer outra coisa, sem causa, independente do tempo e do espaço, e das categorias.
A vontade não se desloca e se extingue passando da coisa desejada para a coisa conquistada, a vontade quer sempre, é avassaladora, é sem sentido. Toda a vida é sofrimento porque é um constante querer eternamente insatisfeito, que leva ao amor, ao ódio, ao desejo ou à rejeição. Para Schopenhauer a Vontade estava presente no mundo como se fosse a própria alma do universo, e era a força total pela qual o mundo existia e se movia. Ele fez da vontade um ser à parte, que se manifestava em toda a natureza como o substrato de todas as coisas. A vida é a manifestação da vontade. Schopenhauer considera como materialização, realização em força ou materialização da vontade, todas as forças e objetos da natureza como a gravidade, o magnetismo, os instintos animais, as forças de reação química, etc.
Schopenhauer elimina Deus, e em seu lugar coloca uma "vontade universal" que é a força voraz e indomável da própria natureza. A vontade aqui nada tem a ver com a decisão racional por uma opção de agir, mas trata-se de um ser absoluto, essência primeira, a coisa em si, o noumeno, que é irredutível e gera todas as coisas deste mundo, Essa fome insaciável da Vontade faz o mundo anárquico e cruel. Essa vontade, que é também um substrato, a coisa em si, no homem, é responsável pelos seus apetites incontroláveis. Ao final o homem encontra a morte, o golpe fatal que recebe a vontade de viver, como se lhe fizesse a pergunta: Você já teve o bastante?
Ética Não contem a noção de dever mas a noção de renúncia. Schopenhauer propõe uma santidade cristã que é mio caminho para o nirvana hindu. No homem a vontade é algo de que ele tem consciência como vontade de viver e ao mesmo tempo consciência de permanente insatisfação com o que ele é (segundo conhecimento, depois do conhecimento da vontade, é o da sua insatisfação) com o que faz, de modo que a única salvação é a superação da vontade de viver.A única salvação definitiva é a superação da vontade de viver. Para anular a vontade: a renúncia, como fazem os santos, e o nirvana da filosofia hindu (budismo e bramanismo) A vontade é constante dor. Isto faz que a filosofia de Schopenhauer seja um rigoroso pessimismo.
Ciência. A incursão que Schopenhauer fez na ciência foi tão desastrada quanto a de Goethe, seu mentor em Weimar. Schopenhauer não aceitou a teoria das ondas de luz e a nova física da eletricidade desenvolvida por Thomas Young (1773-1829) e Michael Faraday (1791-1867. Preferiu a teoria das cores formulada por Goethe, com cuja ajuda havia escrito o "Sobre a visão e as cores", de 1816, baseado no Zur Farbenlehre ("Teoria das cores" - 1810) escrito pelo poeta, que ignorou os achados pioneiros da ciência de sua época nessa área, notadamente as descobertas de Newton. Era também adepto da teoria da geração expontânea dos seres, que Pasteur viria de destruir pouco depois.
Ao dar a Vontade como propulsora da evolução dos corpos, Schopenhauer pareceu a muitos um seguidor da Teoria da Evolução na linha do pensamento de Lamarck. Porém, Schopenhauer concebe a Vontade em seu sistema como algo sem nenhuma meta ou finalidade, um querer irracional e inconsciente, cujo único móvel é meramente o de se impor de alguma forma e se perpetuar.
Psicanálise. A visão pessimista que Schopenhauer tem do mundo influenciou vários filósofos depois dele, notadamente Sartre. A sua influência mais forte deu-se, porém, sobre Nietzsche, Freud, e o compositor Richard Wagner.
O Die Welt als Wille and Vorstellung ("O Mundo como vontade e representação") revela que um grande número dos postulados mais característicos em Freud foram pensados por Schopenhauer. E o mais importante, Schopenhauer articula a maior parte da teoria freudiana da sexualidade. Na psicanálise de Freud se pode encontrar um espelho da própria doutrina da Vontade de Schopenhauer. Sua teoria dos apetites inspirou a Freud sua teoria dos instintos e de que o sexo é essa vontade soberana. Alguns críticos de Freud chegam a dizer que este não fez muito mais que desenvolver na Psicanálise as idéias de Schopenhauer, a começar pela sua teoria dos instintos os quais correspondem perfeitamente à vontade opressora que dirige as ações do homem, e de modo total, não apenas no instinto sexual (eros) como também no instinto de morte (tanatus).
O conceito de "Vontade" de Schopenhauer contem também os fundamentos do que viriam a ser os conceitos de "inconsciente" e "Id" da doutrina freudiana. A vontade como coisa absoluta e auto-suficiente, tem ela própria "desejos". Quando se manifesta na forma de uma criatura ela busca se perpetuar por via dos meios de reprodução dessa criatura. Por isso o sexo é básico para a vontade perpetuar a si própria, diz Schopenhauer no volume II do Die Welt. Resulta que "o impulso sexual é o mais veemente de todos os apetites, o desejo dos desejos, a concentração de toda nossa vontade".
O que Schopenhaur escreveu sobre a loucura antecipou a teoria da "repressão" e a concepção da etiologia das neuroses na teoria da Psicanálise de Freud. A psicologia em Schopenhauer também contem aspectos do que veio a ser a teoria fundamental do método da livre associação de idéias, utilizado por Freud..
Quando Freud fez seus estudos pré-universitários e universitários, entre 1865 e 1875 Schopenhauer estava na crista de sua fama, e era virtualmente o filósofo do mundo de língua alemã. Mas, se Freud não retirou diretamente de Scopenhauer as suas idéias, pode te-lo feito através da leitura de Brentano. Freud foi seu aluno à época em que Brentano publicou o seu Psychologie vom empirischen Standpunkte ("A Psicologia de um ponto de vista empírico") no qual faz vária referências às idéias de Schopenhauer. Por uma outra via, postulados como os da inibição sexual, o dos complexos de idéias subconscientes, do incesto e da fixação materna, podem ter chegado a Freud filtrados através de Wagner.
Freud recorreu livremente também à mitologia e à filosofia gregas. Além de tomar da filosofia a noção de atividade associativa subconsciente, adotou também como divisão da mente humana a divisão platônica da alma, renomeando-as como Id, Ego e Superego. Ainda aqui Schopenhauer pode ter sido o seu guia e inspirador, porque foi aquele filósofo e não Freud que se dedicou ao estudo da filosofia clássica notadamente ao platonismo.
Wagner. O compositor Richard Wagner, inspirado no seu perdido amor por Mathilde Wesendonk, que causou sua separação de sua esposa Minna, e influenciado pela filosofia pessimista de Arthur Schopenhauer, escreveu Tristan und Isolde (1857-59), que tem por expressão fundamental a vontade cega. Em 1869 Wagner retomou um antigo projeto, a tetralogia Der Ring des Nibelungen ("O anel de Nibelung"), entrelaçando significados como, em um nível, a preocupação com o nacionalismo alemão, o socialismo internacional, a filosofia de Schopenhauer, o budismo, e o cristianismo; e em outro nível, o tratamento de temas que Freud desenvolveria depois na psicanálise, como o poder dos complexos com origem na inibição sexual, incesto, fixação materna e complexo de Édipo.



















